Chega. Roda a chave na porta. Todas as roupas que no dia colaram em seu corpo, querendo pertencer a sua pele mais do que sua alma, agora escorregam uma a uma no chão. Cada cômodo carrega uma blusa, uma meia, um tênis, um casaco, três colares, uma bolsa e cinco anéis. Só não carrega os sentimentos. Esse despencou em cada esquina e em cada olhar que não trouxe o bem. Vazou, foi embora junto a lama que escorria na rua, junto ao cuspe do camarada, do rapaz, daquele homem, deste homem, de todos os outros homens desse universo. As lágrimas não marcaram nenhuma roupa, a saliva não passou para qualquer outra boca a não ser a dela. Porque como dizia aquela poeta perdida '' E o dela era pra ela, mais do que dela, era o seu em ser só pra ela ''. Grande verdade, sábia verdade, para aqueles que não enxergam nenhuma outra verdade.
Cada batida de uma música sem nexo, cada movimento de corpos que te empurram para trás, para frente, para o lado do palco onde você não nunca quis estar. Dor latejante, cintilante pra quem vê brilhando uma cabeça infértil, talvez fértil demais para trazer mais uma ideia morta a terra. Aborto pessoal, aborto sentimental, aborto. Contínuo aborto e dor em ventre, pungente...
PS: O rádio não funciona.
Débora Nonaka.
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